A fotografia de Arquitetura como Arte

Desde seu começo, um dos principais assuntos da fotografia foi a Arquitetura. No início dessa tecnologia o longo tempo de exposição necessário para impressionar uma chapa só encontrava “compreensão” suficiente nas paisagens e na arquitetura que afinal, mesmo hoje em dia, não se rebelam nem saem andando por aí fugindo da câmera.

A fotografia deixou de ser uma simples forma mecânica de registro histórico para se tornar uma linguagem artística há muito tempo e isso acabou transformando muitos fotógrafos em artistas visuais, tal a força de sua expressão.

 

Pele de vidro de fachada em Edifício na Av. Paulista – Ricardo Hage, 2017

 

Por outro lado, podemos dizer que uma edificação produzida através do pensamento arquitetônico foi, em todas as eras, o resultado de um esforço técnico e de uma expressão artística. Essa relação, que toma incontestável substância com o desvelamento do “binômio forma-função”, acaba sendo fundamental para o entendimento do trabalho de um fotógrafo de Arquitetura que também é artista.



Na minha experiência pessoal, como alguém que tem formação em Arquitetura e que tem veleidades artísticas, a edificação e sua inserção na paisagem sempre foi um atrativo e tanto. Talvez seja por isso que eu não me considere um “Street Photographer” ou Fotógrafo Urbano, pois nessa categorização artística o foco principal da fotografia é, na maioria das vezes, o ser humano e sua tragédia cotidiana.

 

Forro automatizado em edifício comercial – Ricardo Hage, 2017

 

É muito comum que eu olhe para uma edificação procurando seus aspectos gráficos, aqueles que definem um desenho formado por linhas bem definidas. Já a relação entre luz e sombra que as massas de cor criam na edificação, e que seriam o elemento fundamental de uma pintura, para mim funcionam apenas como preenchimento e as vezes como padrão.

Sim, eu adoro aquela sensação de padrão repetido que, na Arquitetura, destrói a sensação de escala, aquela que nos diz qual as reais dimensões do espaço edificado.

 

Reflexos em detalhe arquitetônico – Ricardo Hage, 2017

 

Rede de proteção em antena sendo desmontada – Ricardo Hage, 2017

 

Falando em padrões, os edifícios cobertos com a famosa “pele de vidro” são para mim o paraíso dos reflexos urbanos. Essas fachadas, chamadas também de fachada cortina ou “structural glazing”, são compostas de uma superfície totalmente envidraçada que esconde os caixilhos estruturais por trás. Por mais que se critique este “estilo” arquitetônico o resultado dos reflexos da cidade nesses edifícios pode, as vezes, ser muito interessante. E lá estou eu com minha câmera…



Outro detalhe que busco em minhas fotografias de arquitetura é a possibilidade de destacar aquilo que nos é tão comum que deixamos de perceber. Esse é o caso de algumas de minhas fotografias do espigão da Avenida Paulista, em São Paulo, obtidas de ângulos que não permitem um reconhecimento fácil de sua localização.

 

Fachada de edifício residencial antigo – Ricardo Hage, 2017

 

Esse também é o caso de algumas fotografias que obtive de dentro de centros urbanos mas que, pela composição, se tornam isoladas e até mesmo campestres no imaginário do observador.

Já na fotografia de interiores, procuro muito pela relação entre o exterior e o espaço interno. Nessa busca, a paisagem vista pelo enquadramento das janelas e aberturas, além das relações entre luz e sombra projetada no ambiente, tornam-se o objeto principal da fotografia.

É interessante lembrar como a imagem que me atrai na arquitetura é aquela que de uma maneira quase instantânea, imagino impressa, emoldurada e pendurada numa parede, fazendo parte da decoração.

 

Reflexos do Sol e de outros edifícios na fachada de vidro de edifício na Av. Paulista, São Paulo – Ricardo Hage, 2017

 

Reflexos de edifício em fachada de vidro na Rua da Consolação, São Paulo – Ricardo Hage, 2017

 

Pois é, se estou andando por aí e vejo algum elemento arquitetônico ou da paisagem interessante, sei que devo fotografar pois rapidamente já configurei a imagem como obra de arte “tradicional”, para ser apreciada numa exposição.

É uma postura pouco contemporânea, digamos assim, mas para alguém que já foi taxado como “Renascentista” como eu, não há problema nenhum. Acho até que não há nada mais “renascentista” do quê uma câmera digital e o Photoshop!!!