Opinião: Por que fotografar em Preto e Branco?

É engraçado pensar como a fotografia em Preto e Branco resiste ainda nos dias de hoje, afinal qualquer “camerazinha” digital pode reproduzir uma tonelada de cores. Toda vez que penso nisso me vem a mente como essas fotos captadas ou impressas em tons de cinza são bonitas.

Talvez tenhamos aprendido isso através da história, da impecável fotografia do “film noir” ou por que sejamos geneticamente inclinados a gostar dos tons de cinza de uma imagem, sei lá, mas que a fotografia em Preto e Branco é algo que atrai não dá para negar.

Piano Bar – câmera Leica D-Lux 6 e filtro PB Kodalith do Exposure X2 no Photoshop – Ricardo Hage, 2017

 

Origens da Fotografia em Preto e Branco

A fotografia começa com a imagem monocromática e durante muitos anos as imagens em Preto e Branco eram sinônimo dessa técnica. Como durante o séc. XIX e boa parte do séc. XX a fotografia havia se tornado uma substituta dos tradicionais retratos pintados por artistas, os fotógrafos se esmeravam no estilo e na qualidade de seu trabalho para atrair consumidores mais importantes e abastados. De certa maneira isso faz com que a fotografia em Preto e Branco começasse a ser encarada como um alternativa de “bom gosto” as pinturas tradicionais.

No início do século XX alguns aspectos desse tipo de fotografia também se destacavam como a já comprovada durabilidade da imagem ou então a qualidade da reprodução do cotidiano que alguns filmes e câmeras já proporcionavam. A técnica também começa a se popularizar com a disponibilização de câmeras simples e populares além de filmes mais baratos, passo esse muitas vezes creditado à George Eastman, criador da Eastman Kodak e seu filme fotográfico de rolo.

Mesmo com o surgimento do filme colorido, que ainda era caro e tecnicamente complexo quanto à revelação, muitos fotógrafos continuaram desenvolvendo a visualidade da fotografia em Preto e Branco, caso de Cartier-Breson (veja meu post sobre Breson aqui) ou de Man Ray. A continuidade de uma produção artística com a fotografia monocromática acabou reforçando mais ainda a identificação desse tipo de linguagem como uma manifestação eminentemente artística: se a foto é em P&B deve ser Arte, com “A” maiúsculo!

 

Fotografia de Henri Cartier-Bresson

 

Fotografando uma imagem em Preto e Branco

Nos dias de hoje é possível produzir uma imagem em PB de várias maneiras. A mais tradicional é utilizando um filme monocromático revelado e ampliado. É possível também transformar uma imagem digital em colorida tentando simular o efeito que um filme tradicional Preto e Branco teria.

Vamos dar uma olhada em cada caso e ver suas possibilidades em pleno século XXI:

 

  • Fotografando com filme Preto e Branco:

Essa é a opção mais simples pois nada mais é do que utilizar a própria tecnologia que gerou a estética do filme P&B para produzir imagens em tons de cinza. Como já falei em posts anteriores a chamada fotografia analógica tem sido tratada como um hobby, uma forma de arte ou até mesmo como ato contracultural pelos mais jovens.

Atualmente no Brasil não é muito fácil achar laboratórios fotográficos fora dos grandes centros urbanos mas como a fotografia P&B não exige muito para que possa ser processada é comum encontrarmos entusiastas que revelam e ampliam suas imagens até mesmo em um laboratório improvisado no banheiro de casa.

Os filmes e produtos ou insumos para revelação são acessíveis e achados no mercado com relativa facilidade. Fotografar e revelar em filme P&B é um assunto extenso então deixo para outro dia mas se você quiser saber um pouco sobre a Lomografia, movimento que incentiva o uso de filmes analógicos na atualidade, leia o post que publiquei aqui.

Mont Blanc – Camera Olympus OM10, 50mm f1.4 – Fuji Neopan 100 – Ricardo Hage, 1988

 

  • Tirando a saturação de uma foto digital

É muito fácil transformar uma imagem digital colorida em Preto e Branco simplesmente tirando a saturação de cor da fotografia através de um comando no Photoshop ou outros aplicativos de imagem. No entanto não é só isso que produz uma imagem em P&B de qualidade.

Os fotógrafos profissionais utilizam uma série de recursos para fazer com que o Preto e Branco de suas imagens seja realmente uma imagem de qualidade e não apenas uma imagem sem cor!

Ao longo da história da fotografia vários tipos de filme e papéis fotográficos foram desenvolvidos para captar as imagens de maneiras bem específicas. Por exemplo os filmes Panagráficos equalizam todos os tons de cinza para mostrar mais os detalhes das sombras de uma imagem, os filmes Técnicos (Techinical Pan) registram tantos detalhes que lembram desenhos e os filmes artísticos como o Fuji Acros ou os Ilford Delta apresentam maior ou menor contraste e cinzas mais frios ou mais quentes, ou seja, puxando mais para o azul ou para o amarelo.

Aprendemos também a apreciar o efeito do “grão” que alguns filmes e papéis fotográficos apresentam então muitos fotógrafos adicionam estes detalhes “artificialmente” em sua imagens digitais coloridas desaturadas.

Para facilitar esse processo muitas empresas desenvolveram aplicativos que trabalham tanto como “Plug-Ins” no Photoshop quanto isoladamente para aplicar efeitos de simulação de filmes clássicos. Dentre esse podemos elencar o On1 Photo Raw, o DXO Film Pack, utilizado por Sebastião Salgado em sua transição para a fotografia digital e o Exposure X2 da Alien Skin. E não posso esquecer do Nik Collection com seu Silver Efex Pro que apesar de não ser mais atualizado ainda é dado de graça pelo Google.

 

Espigão da Paulista, câmera Fuji Xt-1, 18-55mm com filtro On1 Photo Raw High Key no Photoshop – Ricardo Hage, 2016

 

  • Fotografando digitalmente em preto e Branco

Algumas câmeras digitais e smartphones tem a possibilidade de fotografar em Preto e Branco direto do equipamento. Normalmente o controle para este tipo de fotografia fica aninhado nos comandos de “efeitos especiais”, junto com ajustes para fotografias mais vívidas, em tons pastéis, sépia e coisas dos gênero.

O resultado normalmente é gravado em um arquivo JPG mas nas câmeras mais avançadas que também fotografam em RAW (que alguns chamam de Negativo Digital) o resultado pode ser gravado nos dois tipos de arquivo. Nesse caso o arquivo RAW mantém as cores e todos os detalhes originais da imagem enquanto o JPG apresenta tons monocromáticos (ou do efeito que foi aplicado).

As câmeras da Fujifilm da linha X tem como conveniência a aplicação de simuladores de seus próprios filmes, inclusive o Fuji Neopan Acros em Preto e Branco, veja como esses filtros funcionam na matéria especial que fiz sobre o assunto.

Alguns fabricantes chegam ao ponto de produzirem câmeras cujos sensores só captam imagens em Preto e Branco. Esse é o caso da Leica M Monochrom que fotografa apenas em tons de cinza. Ela é digital, cara e chique mas muitos analistas não gostam muito do resultado das imagens que a câmera capta. Como sempre a Leica não dá bola para críticas e continua em frente…

 

Ponto de ônibus, smartphone Galaxy S7 e Photoshop com filtro Ilford XP2 Super do Exposure X2 – Ricardo Hage, 2017

 

Conclusões?

Gosto muito da fotografia em Preto e Branco sendo que algumas de minhas imagens só “funcionam” assim e para isso tenho usado diversos recursos (menos fotografar com a Leica M Monochrome pois não tenho tantos “recursos” assim…).

Como sou meio preguiçoso prefiro utilizar algum “Plug-in” para Photoshop como o da On1 (para p&B mais estilosos e contemporâneos) ou o da Alien Skin (para reproduções de filmes clássicos). Ao mesmo tempo que me dão muito controle sobre a imagem final também permitem uma boa automatização do processo caso queira tratar várias imagens de uma vez (coisa que aliás quase nunca faço).

Reflexos na Laje, câmera Nikon P900 com filtro Ilford XP2 Super do Exposure X2 no Photoshop – Ricardo Hage, 2017

 

Tenho também usado os filtros em P&B para “melhorar” imagens tiradas com câmeras de menor qualidade ou em fotos obtidas sem uma boa iluminação. A adição de grãos artificiais e a retirada do ruído de cor em fotografias com alto ISO acaba “salvando” fotos que em cor não teriam valor nenhum (além do registro da cena captada, é claro).

Quanto aos filtros “in-câmera” prefiro usar os coloridos, nunca achei nenhum em Preto e Branco que produzisse uma imagem que não ficaria melhor se fosse feita no Photoshop com os filtros de filme. E digo isso mesmo quanto as câmeras da Fujifilm que considero ótimos.

Viaduto Dr. Arnaldo, smartphone Nokia 808 com filtro PB básico laranja do On1 Photo Raw – Ricardo Hage, 2016

 

E o filme analógico em Preto e Branco? Ah… eu já me acostumei com a instantaneidade que a câmera digital dá, fiquei viciado. De vez em quando compro algum filme e coloco em algum equipamento da minha já extensa coleção de câmeras analógicas recuperadas do ferro velho (é o que dá para comprar nessa crise, hehehe). Acabo com o filme rapidamente ou fico ansioso por semanas com a câmera carregada procurando pela melhor oportunidade para não perder uma “chapa” com uma cena sem importância. Sem contar a questão da revelação, ampliação e digitalização que é outro drama!

Mas para cada um nós, interessados na fotografia, as imagens em Preto e Branco e seu processo tem um significado único. Seja lá qual for esse significado para você aposto que continua valendo a pena exercitar essa linguagem fotográfica tão forte e marcante.