Opinião: é possível fotografar bem com um smartphone?

A primeira vez que vi um celular com câmera digital fiquei em êxtase. Era um sonho realizado pois como eu sempre estava com um celular no bolso poderia agora estar também com uma câmera na mão ao me deparar com as muitas cenas interessantes encontradas no dia a dia. Ah, ledo engano!!!

Naquela época usávamos ainda aparelhos chamados simplesmente de celulares que tinham muito pouca funcionalidade. Quando vinham com câmera apresentavam telas pequenas e fotografavam numa resolução que seria hoje em dia algo em torno de 30% a 50% de 1 Megapixel. Sendo bem claro as imagens sempre deixavam muito a desejar, ainda mais para alguém como eu que só queria fotografar cenas em movimento e com pouca luz.

 

Anônimo fotografando Nossa Senhora de Fátima com smartphone na procissão – Ricardo Hage, 2017

 

O tempo foi passando e eu ia testando tudo o que surgia mas na realidade nada me deixava satisfeito. Alguns celulares até que apresentavam um conjunto ótico bom pois como tinham mais profundidade (eram gordinhos) podiam contar com espaço para lentes internas maiores. Esse era o caso do Nokia N95 ou do Motorola de 1.3Mpx do qual nem me lembro mais o nome do modelo.

Mas com o surgimento do iPhone e a necessidade de aparelhos mais finos parecia que havia sido dado um passo atrás no campo dos celulares com câmera. O conjunto de lentes e sensor teve que ser miniaturizado e percebi que a qualidade da imagem deixava muito a desejar. Foi apenas a partir do iPhone 5 que a câmera do smartphone da Apple alcançou o respeito que já havia sido obtido por celulares com câmera mais antigos.

 

Auto retrato com espelho e peça de acrílico obtido com celular tipo flip Motorola – Ricardo Hage, 2006

 

E eu continuava insatisfeito. Em 2010 lancei um livro intitulado “Digital Lomographic Art” feito apenas com fotos obtidas em um iPhone 3s e manipuladas em aplicativos que davam alguma qualidade as imagens mas mesmo assim ainda não era o que eu almejava.

E hoje em dia, às vésperas do lançamento de um novo iPhone e com o novo Samsung S8 e sua badalada câmera eu fico me perguntando: é possível fotografar direito com um smartphone?

Eu acho que sim no caso de alguém que só queira fotografar os passeios e aniversários da família sem grandes preocupações estéticas mas eu acho que não no caso de um fotógrafo com maiores veleidades artísticas.

Tenho uma amiga leitora aqui do blog que acha a câmera de seu LG G3 maravilhosa e não troca o aparelho de jeito nenhum mesmo que ele já tenha sido ultrapassado por 4 gerações do smartphone (já está no G7). Eu mesmo ainda sinto que a câmera do Nokia Pureview 808 é insuperável nos seus 41 Megapixels. De vez em quando carrego a bateria e saio por aí tirando fotos que me espantam pela qualidade de cor, profundidade de campo e dramaticidade dos resultados.

 

Viaduto na Liberdade, foto obtida com Nokia 808 – Ricardo Hage, 2016

 

No entanto conheço muita gente que quer apenas um registro reconhecível de um momento pelo qual passou e aí qualquer smartphone atual dá conta do recado.

Quanto a pergunta que fiz anteriormente, eu acho que não quando algumas pessoas querem mais do resultado de seus celulares. Nesse caso é bom pararmos para perguntar se o problema está na câmera ou no fotógrafo…

Pois é, uma pessoa que não tenha algum tipo de treinamento fotográfico vai ter dificuldade em conseguir um resultado melhor nas fotografias com seu smartphone pois apesar de algumas tentativas da indústria de tecnologia o aparelho ainda não fotografa sozinho!!!

 

Show musical, foto obtida com Galaxy S7 Edge – Ricardo Hage, 2017

 

Quando dou cursos sobre fotografia com smartphone percebo sempre que o problema é a falta de orientação no olhar do aluno e o pouco ou nenhum conhecimento do repertório da fotografia. É por isso que, mais do que as questões técnicas, reforço no aluno o desejo de olhar a fotografia com de um ponto de vista crítico baseado no conhecimento do que melhor se faz por aí com o equipamento que ele tem, ou seja, usando seu próprio smartphone seja lá qual for.

Em grupos pequenos ou aulas particulares é mais fácil desenvolver esses aspectos e os resultados aparecem muito rapidamente. É comum que o aluno acabe chegando ao máximo que é possível conseguir com seu aparelho e fique interessado em trocar de smartphone ou até mesmo comprar uma câmera fotográfica para continuar a se desenvolver na fotografia.

Eu confesso que adoro ver isso acontecer. É engraçado pensar que só quando passei pelo Doutorado em Educação (com foco no ensino de Artes Visuais e interdisciplinaridade) tomei completa consciência de como esse processo acontecia e da importância que ele tinha para o aluno. E tem mais: tanto minhas fotografias (quanto meus desenhos e pinturas) também melhoraram muito, mesmo esse não sendo o foco da pesquisa…

Talvez o tempo nos apresente smartphones cada vez mais capazes quanto à fotografia…

Talvez a necessidade do mercado e os novos avanços da tecnologia nos tragam aparelhos que enfim substituam uma câmera fotográfica dedicada, não sei…

Talvez até o ato de fotografar acabe perdendo a importância quando tantos bilhões de pessoas hoje em dia produzem tantos outros bilhões de imagens digitais, sei lá, mas só sei que enquanto isso continuo tentando fotografar bem com o equipamento que me cair nas mãos!

E vamos em frente!

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