O que é mais importante, a câmera ou o fotógrafo?

Dizem que todo fotógrafo ao ter seu trabalho elogiado ouve a mesma pergunta: qual câmera você usou?

Confesso que quando ouço algum profissional reclamando que o cliente ou o púbico só quer saber de qual equipamento ele usou e não de que “conceito artístico” ele elaborou acho graça. Talvez isso se deva pelo fato de que uma das primeiras coisas que falo sobre meu trabalho é exatamente qual equipamento foi utilizado!

Tenho esse problema, adoro equipamentos fotográficos e vocês já devem ter percebido isso mas será que a marca ou o tipo da câmera por si só resolvem o problema de se fotografar bem?

 

Quem não gosta de uma câmera sofisticada?

 

Para mim não há muito o que discutir: o bom resultado de uma fotografia se deve à relação que existe entre as possibilidades do equipamento e a capacidade técnica, expressiva e de composição do fotógrafo, ou seja, não adianta você usar o melhor e mais caro equipamento do mundo se você não sabe o que é o “claro-escuro” na pintura ou quem foi Rembrandt ou Vermeer. É simples assim.

Talvez isso explique porquê no Brasil muitos fotógrafos investem milhares de dólares em equipamento de última geração e, mesmo utilizando técnicas de marketing avançadas, não conseguem se manter no mercado. O produto final simplesmente decepciona.

 

Um ótimo exemplo de iluminação e direção de arte: Garota com Brinco de Pérola – Johannes Vermeer, 1665

 

Outra questão importante é a de que o investimento feito pelo fotógrafos em equipamentos não é equilibrado por um mesmo investimento em conhecimento e formação profissional. Eu não estou falando apenas de se fazer um bom curso técnico ou universitário de fotografia mas também no investimento no aprendizado de línguas, na leitura de material sobre arte e fotografia de outras culturas e até mesmo viagens. Uma formação cultural ampla e aberta a todo tipo de informação (e não só aquela orientada por um determinado grupo social, cultural e mesmo ideológico) permite que uma pessoa seja autônoma o suficiente para desenvolver seu próprio “estilo”, digamos assim, e garante que essa expressão pessoal tenha qualidade.

 

Esperamos que o fotógrafo tenha sobrevivido ao excesso de câmeras utilizados nesse trabalho!

 

Eu me lembro bem da reação que meus alunos universitários tinham quando eu usava alguma referência cultural inusitada para minha faixa etária e origem (velho e cafona), como por exemplo falar de algum animê que estava seguindo pela Internet (animação produzida por estúdios japoneses que tem uma expressão estética bem específica). Eles não entendiam como eu podia conhecer aquilo, gostar e usar como referência em meu trabalho artístico, ainda mais sendo um “tiozinho”.

E para piorar a situação eu também gostava (e gosto) de expressões artísticas tradicionais e visualidades clássicas como o dos filmes do período “glamuroso” de Hollywood. Essas referências que habitam minha vida cotidianamente são complementadas pelo fato de eu ter estudado História da Arte por muitos anos da faculdade, portanto, seja lá qual for a câmera fotográfica que eu usar essas referências vão “guiar” o meu olhar e o resultado terá obrigatoriamente um pouco desse conhecimento estético.

O resultado da fotografia acaba sempre sendo um pouco melhor do que o de alguém que não tem referências…

E daí, sou o melhor fotógrafo do mundo?

Claro que não (já ouvi que sou mediano em tudo) mas assim eu vou caminhando: morrendo de inveja de quem usa uma câmera “Full Frame” (que eu não tenho ainda!) enquanto o “fullfremista” fica se contorcendo de inveja das imagens que eu consegui com um pequeno smartphone.

Para terminar essa discussão pensei em algumas dicas que podem ajudar o fotógrafo amador ou profissional a melhorar a sua fotografia nem que seja apenas para ter mais satisfação pessoal com seu trabalho:

 

  • Estude um pouco de história da Arte: se você puder faça um curso introdutório ou melhor ainda, uma especialização. Além dos cursos presenciais você pode contar com vários vídeos no YouTube e até mesmo o verbete da Wikipedia ajuda como ponto de partida. No mínimo você vai ter mais assunto para paquerar alguém!

 

  • Procure ler revistas de fotografia: o Brasil já teve muitas revistas importantes dedicadas ao mercado fotográfico mas poucas conseguiram sobreviver até a atualidade. Mesmo assim vale a pena conhecer as que ainda existem bem como explorar a grande variedade de revistas que se publicam nos mercados Americano e Europeu. A índia e a Ásia tem despontado também como berço de várias publicações importantes. A maior parte dessas revistas tem uma versão impressa simultânea a uma versão online então não fique inventando desculpas para não conhece-las. Ah, e se você lê japonês me ajude pois o tradutor do google não está resolvendo o meu problema com essa língua…

 

  • Faça parte de fóruns de discussão e grupos em mídias sociais sobre o assunto. É muito comum encontrar outros brasileiros nos grupos de discussão internacionais procurando pelo mesmo tipo de informação e reflexões que estou discutindo aqui. Deve ser uma preocupação meio geral…

 

  • Leia sempre meu blog: sim, foi por isso que eu o criei. Muito das informações que eu publico sobre fotografia são sobre as questões que durante anos procurei no exterior através da Internet e é por isso que eu praticamente não divulgo notícias nacionais. O blog não foi feito para isso pois existem outros milhares de sites e canais do Youtube somente voltados para a informação e produção fotográfica nacional (e eu os leio e assisto sempre, são muito bons). Fiz o blog porque alguns alunos e amigos gostavam das informações que eu achava pelo mundo mas não tinham a mesma autonomia para descobri-las por si mesmos. Só isso.

Espero que eu tenha ajudado um pouco, quem sabe você possa encontrar a sua melhor expressão fotográfica… Mãos à obra!